Eu sou Mercúria!
1ª parte do arco “Eu sou Mercúria!” de Superpoderosa
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Mercúria avança veloz pelo bairro nobre da cidade. Visa o apartamento do repórter Marcelo Siqueira, pois tem assuntos importantes para tratar com ele. Antes que o porteiro se dê conta, entra seguida do vento e sobe as escadas até o vigésimo andar. Toca a porta por várias vezes e quando o repórter abre, entra rapidamente.
— Que história é essa de contar sobre meus poderes e o meu nome? — ela pergunta.
Ele deixa cair a caixinha de yakisoba que jantava.
— Só estava fazendo meu trabalho — argumenta. — Quer jantar? Você come, né?
— Viu o que aconteceu na noite passada, a pessoa que aquela maluca de martelo matou. Ela virá atrás de você!
— Fique tranquila, eu sei me cuidar. Vou pegar uma caixinha pra você. Moro sozinho e só como essas coisas que entregam.
— Eu não vou estar por perto o tempo todo, Marcelo — ela aponta para o repórter.
— Me chamou pelo nome! Estamos progredindo.
Mercúria suspira. Responde:
— Não adianta falar com você, não é?
Ele se levanta para buscar o yakisoba, mas quando volta não há ninguém na sala.
Mercúria tem receio de ir à delegacia e colocar a vida de Meire em risco. Ela sabe que a qualquer momento pode ser atacada novamente por Ardente. Por falar na vilã, tinha dúvidas que precisam ser esclarecidas por ela, afinal era a primeira que encontrou com poderes sobre-humanos.
O que lhe resta é patrulhar a cidade e fazer o seu trabalho. Na periferia ela se depara com crianças dormindo em um galpão abandonado, era a primeira vez que as via. São treze, ela conta. Todas abandonadas pelos órgãos públicos, pessoas e mídia. Era a primeira vez que refletia sobre isto, não sabendo como agir. É diferente o tipo de mal a ser combatido. Na avenida acima, carros luxuosos passam velozes sinalizando que a vida transcorre sem que a presença dessas crianças seja considerada. Ela permanece estática e o vento da noite toca-lhe o rosto. As crianças ao notarem a presença da heroína deixam o galpão e suas camas de papelão para avançarem.
— Tia, dá um real? — pede um.
— Estamos com fome! — reclama outro.
Mercúria observa que a maioria deles porta garrafa plástica à mão ou pendurada no pescoço e não entende o que isso significa, apesar do cheiro estranho que tais objetos exalam. Ela se afasta e os excluídos avançam novamente.
— Eu não tenho dinheiro — justifica.
Mercúria é surpreendida quando uma das crianças lhe puxa os cabelos com violência e outra lhe arranca os brincos dourados em forma de raio. O sangue escorre pela orelha mutilada.
— Não é lamentável? — é Ardente, observa Mercúria.
Ela caminha em direção das crianças. A marreta vem presa à cintura.
— Isso é obra sua? — Mercúria pergunta.
— Não. Isso é obra humana. É contra isso que luto e contra o que você deveria lutar — ela afaga o cabelo de uma criança.
— Quem é você? Qual a sua relação comigo?
— Já disse, somos parentes — Uma explosão e Ardente desaparece.
Aquilo intriga Mercúria. Parentes? Tantas perguntas e ninguém para respondê-las. Se tivesse um tempo com Ardente. Ela se lembra das insinuações da inimiga; das crianças de rua abandonadas pelos humanos. Mercúria indaga a si mesma se prender bandidos, evitar assassinatos e crimes era tudo; se era suficiente.
No outro dia, pela manhã, ao abrir a loja de revistas usadas ela observa o pacote com exemplares do Jornal Cidade deixados pelo entregador durante a madrugada. Uma nova matéria sobre ela estava anunciada na capa. Marcelo Siqueira usa a mesma fotografia da notícia anterior, mas o texto é outro. Nele, o repórter diz que cidadãos de Santa Paz devem ter muito orgulho por poder contar com Mercúria para protegê-los. Ele informa que a heroína faz toda a diferença para quem salva, mesmo sendo impossível salvar todo mundo; ela é um exemplo, um convite para fazermos algo também. No fim do artigo, ele diz que nos esquecemos dos outros e estamos focados nas nossas vidas, deduzindo que os outros também estão. Mercúria vem numa época perfeita para mudar o nosso pensamento. Ele a agradece publicamente por ter lhe salvado a vida.
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