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Bruma mágica

Amanhã

Paul Law

A primeira vez que Amanhã assumiu sua alça de caixão.

15 novembro 2025 7 minutos de leitura

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Em vida mais simples, ainda, foi que Amanhã tomou a sua alça no caixão de sua mãe. Uma força dos futuros e passados que nunca teria a impeliu a assumir seu lugar no mundo e ser quase sempre, destino, sina ou ela mesma. Já estava em seus postos os seus cinco irmãos: Dono, Noiva, Menino, Nada e Ninguém. Seguiria ao Vale das Sombras da Morte pela primeira vez, deixando para trás Carlos e a fazenda. Ainda pensava nos balanços contábeis que teria de apresentar no outro dia pela manhã pouco antes de fechar os dedos sobre o ouro da última alça.

Foi só até então que preocupações numéricas lhe fizeram sentido. O frio do ouro arcado afastou o mais humano de si e a conectou com o pequeno tudo. Não é bem possível explicar o que sente ou acontece a um recém-nomeado carregador, mas faremos o nosso melhor.

Assim que ocupou seu lugar de beirada de caixão, Amanhã teve a impressão ou era verdade de que as formigas pisavam sobre seu rosto. O toque de todos os insetos do universo lhe era sensível. O som do bater das asas de um mosquito era alto. O local em que estava já não era fácil de dizer; não era a noite de sua morte, nem o amanhecer do nascimento ou o dia do abandono, estava em tudo de alguma forma e em nada, de outra.

— Elisa — uma voz rouca de senhora a trouxe para algum lugar. Ouviu o barulho da máquina de costura.

— Onde estou?

Era uma pequena sala com paredes pitadas à cal, piso avermelhado bem lustrado e iluminação amarelada. A velha senhora estava sentada em frente a uma máquina de costura antiga, com óculos na ponta do nariz. Ela, de frente a quem costurava em um banco de madeira. A velha disse:  

— Fiz essa boneca para você, o que acha?

A boneca de pano tinha quase um metro. Seu corpo todo era coberto pelas faixas da morte que ela reconheceu não soube de onde.

— Pegue, vamos — a senhora estendeu o brinquedo.

Mas Elisa teve medo. Levantou-se dali e saiu pela porta verde do recinto que, ao ser aberta, revelou-lhe uma noite de túmulos e igreja.

— O que está acontecendo comigo? — perguntou a si mesma.

A luz trêmula da igrejinha a convidou para entrar, resgatando crenças que tivera. Rezar, fé, acreditar, o céu, pensou ao mover os pés descalços. A porta retangular estava aberta, havia um tapete púrpuro no corredor que levava ao altar na extremidade do cômodo. Bancos de madeira ladeavam a igreja e não havia nenhuma estátua de santo. Sentou-se no último banco, ajoelhou-se e pediu.

— Está tudo bem, minha filha — uma mão fria tocou-lhe o ombro.

— Padre?

— Aqui é um lugar seguro.

— Não entendo… 

— É porque ainda está presa ao que era e não ao que é. Fui como você é, um dos primeiros. Ao mesmo tempo que é um presente, é uma prisão, trazer as almas para o Vale das Sombras da Morte…

Elisa então se lembrou dos carregadores de caixão, de Último Dia, Nunca Mais, Fome, Sem Futuro, Sonho e Pó e Artesão.

— Eles já fizeram o tanto deles — Padre ouviu seus pensamentos.

Não! Ela não queria isso! Levantou-se e saiu da igreja, correndo. Tinha que fugir dali, escapar de algum modo, imaginou enquanto corria pelo cemitério. Tropeçou em um galho, bateu a cabeça, ouviu o apito do trem, viu pés de sapatão sujos de cimento.

— Sua mãe precisa ser trazida para que eu possa enterrá-la.

— Coveiro, outro carregador de caixão — Elisa disse, sem entender como sabia.

O homem sorriu e ajudou a mulher caída a se levantar.

—  Aposentado — ele a corrigiu.

— Começo a ter vislumbre da vida de todos vocês, se é que posso chamar assim…

— A alça, a madeira, as faixas, nós, tudo feito da mesma coisa, criança. Quando se acostumar poderá estar com o seu próprio futuro e conversar com seus sucessores que ainda nem nasceram, como estou fazendo agora…

— Não tem volta, não é?

Coveiro gesticulou negativamente. Falou:

— Alguém tem que fazer este trabalho.

— Volte até Costureira e receba as suas faixas de morte. Elas são únicas e vão ajudar…     

Assim que tocou o pano da boneca uma serenidade de beira de lagoa lhe invadiu. O coaxar dos sapos que já existiram se fez, triste em seus ouvidos. Ela reconheceu Costureira, soube de Maquinista, Padre, Coveiro, Desenlace e Mais.

— Agora vá, menina.

— Ainda não — a voz de Elisa soou diferente a si mesma, agora que tocara a boneca enfaixada de morte.

Seu eu foi arrastado por vontade própria para o que ainda viria. Despertou no que, talvez, fosse seu último dia e viu Triste Ontem, seu substituto. Ver é um modo de simplificar as coisas, pois ela, Amanhã, estava sendo espancada por Ontem; amarrada ao tronco do Flamboyant seco.  

— Eu sabia que você viria — disse Triste que apesar de ter aparência feminina, tinha voz de homem. — Uma pergunta antes de eu te apagar? — ela ou ele deu um soco na barriga de Amanhã.

Tudo se escureceu e ela voltou à alça de caixão e à sua primeira caminhada ao lado dos irmãos, trazendo a indagação sem ser feita, a boneca enfaixada de morte e as marcas do espancamento de Triste Ontem.          

O que achou de Amanhã?

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