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Bruma mágica

A água das plantas

Paul Law

Uma avó em seu leito de morte pede ao neto que cuide de suas plantas.

25 outubro 2025 11 minutos de leitura

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— Você vai aguar as minhas plantas, não vai?

— Vó, tem tanta coisa mais importante para se preocupar agora…

Luísa gesticulou negativamente após ouvir a resposta de Hélio. Para ela a água das plantas era a coisa mais importante do mundo, mesmo ali, talvez nos últimos momentos de sua vida. Quando terminasse o viver quem, afinal de contas, ficaria responsável pela samambaia?

O fim dos dias não era algo que a idosa temia, pois tinha se convencido de que além de inevitável era inútil sofrer com dúvidas e apegos materiais. Se Nossa Senhora estivesse lhe esperando de braços abertos, como acreditava que estaria, seria o momento mais grandioso de sua existência; se não, não perderia nada, afinal não seria merecedora de tamanha graça e tudo estava bem. Na pior das hipóteses acreditava que a fé a fizera levar uma vida toda tendo boas condutas, o que já tinha valor em si mesmo. Então não temia por ela, mas pelo que deixava; pela água que faltaria e pela vida perdida junto da sua.

A mulher de setenta e oito anos estava internada há vinte e dois dias em um dos leitos comuns da Santa Casa por causa de um tombo sofrido em sua cozinha. O diabetes estava elevado, o fêmur tinha se partido no tombo; o osso não calcificava e as escaras aumentavam a cada dia. Ali resgataram seu diagnóstico da última internação; trazendo exames antigos que mostravam um coração fraquinho. Após novos exames constataram que o problema não só persistia como havia se acentuado, fazendo com que Hélio acreditasse que ela não voltaria mais para casa. O neto não entendia a fixação da avó pelas plantas que deixara em casa.

Luísa notou o semblante de incompreensão de Hélio após observar a decepção da vó ao ouvir dele que havia problemas maiores do que a água das plantas. Reuniu forças para explicar-lhe que quando tinha quase a idade dele, uns vinte anos, a sua vó, Laura, lhe explicou que o vaso da sua samambaia era proveniente de uma outra espécie da planta, natural lá da Mata Atlântica que se chamava Samambaia Gigante. Eles cortam uma árvore grande e usam o tronco pra fazer vaso de xaxim. Então a samambaia vive no corpo de uma irmã morta. É como se a morte de uma fosse o espaço para as raízes da vida de outra…

A samambaia de Laura ficava num vaso de xaxim na área da casa grande do sítio. Era uma planta que tinha um ritmo de vida calmo e belo. Devia ser irrigada de acordo com a umidade da terra em sua volta e ela gostava do úmido, mas não podia ficar encharcada. Nem muito molhado nem seco demais, o equilibro que se deve ter na vida, contou a avó à Luísa.

— Ela me levava pra ver a planta. Me mostrava o dedo barrento para medir se precisava de mais água ou não, se estava saudável, se precisava de mais ou menos luz observando a folhagem queimada pelo sol. Ela me ensinava coisas com esses gestos simples.

A sabedoria dos antigos demonstrava que a samambaia tinha fases de vida; que ela não dava flor nem gerava sementes, mesmo assim dava esporos que podiam se tornar novas plantas. Para fazer mudas era necessário tirar uma touceira da samambaia e plantá-la em outro vaso. Apesar de ser tão formidável, fora da natureza, a vida da samambaia estava nas mãos de quem detivesse o dom de dar-lhe água e luz do sol na quantidade certa. Era uma grande responsabilidade…

— Quando a vó tava pra fazer o seu passamento ela fez o que tô fazendo agora. Me chamou lá no quarto dela e me perguntou se eu podia cuidar da samambaia pra ela. Fiz uma cara parecida com a sua, concluindo que era bobagem pensar na planta num momento como aquele. Apesar de fraquinha vó Laura sorriu com doçura e me deu sua última lição; a de que morrer fazia parte da vida e que não havia nada de ruim nisso; que ninguém reconhecia o xaxim que é o corpo de uma samambaia morta como um cadáver, mas como uma linda parte da samambaia. Ela queria ser lembrada assim: como algo que não fosse morto, mas que fizesse parte de uma coisa bonita. Enquanto eu fosse a samambaia ela seria o meu xaxim. Vi beleza nas palavras que ela me disse e aceitei o encargo com muita seriedade. Eu tinha vinte e quatro anos nessa época e nem era casada ainda.

Mas com o passar dos anos o encanto das palavras de Laura foram sumindo entre os afazeres cotidianos. Tornou-se difícil ter o cuidado especial que a vó queria que Luísa tivesse com a planta. O casamento, a mudança para cidade, os filhos e afazeres domésticos, as turmas da escola, tudo isso foi diminuindo as visitas à velha casa do sítio que era o lar da samambaia.

Certa vez, quando passou lá para ver a planta ela quase chorou. A samambaia estava com folhas amarelas, galhos secando e fraquinhos. A culpa por esquecer da promessa que fizera à mãe de seu pai, pessoa tão carinhosa, simples e sábia que existia agora em lembranças e nas folhas da samambaia a deixou muito triste.

Laura foi uma mulher que viveu a vida toda na roça, primeiro trabalhando na pequena propriedade de seus pais com seus irmãos; depois naquela casa ao lado do marido cuidando dos nove filhos. O lugar mais distante que conheceu em vida foi a cidade de Aparecida, onde ia de vez em quando em romaria. Não tinha mais um corpo, mas de alguma forma vivia naquela área abandonada; dava quase para sentir o cheiro dela, sua presença tão calma tal qual a samambaia. Seu sorriso de olhos fechados e lábios marcados pelo tempo tão verdadeiro que fazia inveja a qualquer riso novo. Vovó tinha um quê de planta, lembrou com saudade Luísa.

— Eu sabia que as mudas iam bem se a planta estivesse saudável para tirar touceira, mas imaginei que a parte ainda verdinha poderia dar uma boa muda. Então tirei uma parte do velho xaxim com cuidado e plantei em um vaso de cerâmica. Coloquei num lugar que sabia que recebia boa luz durante o dia, perto da mãe-samambaia doente. Pedi em reza pra vó me ajudar a salvar a samambaia.

Preocupada, Luísa passou a ir duas vezes na semana ao sítio para ver a samambaia, conferindo se o sol estava sendo suficiente e mantendo a irrigação em equilíbrio. Ela não queria que as plantas morressem, afinal de contas ela era a samambaia e a vó o xaxim. A separação da parte boa não evitou que a parte original secasse, mas salvou um pedaço da planta que manteve o verde-bonito que tinha dos tempos de Laura e cresceu, estendendo seus galhos pelo vaso num grande leque vistoso. Luísa sabia que a samambaia podia chegar aos cento e cinquenta anos. Era uma forma de manter a vozinha viva por bastante tempo.

A cidade não era distante. As visitas ao sítio se tornaram rotina e logo a nova samambaia da vó Laura ganhou companhia de outras plantas. Rosa normal, rosa do deserto, vinca de diversas cores que floriam em tempos diversos e deixavam um cheiro gostoso no ar. As plantinhas traziam paz ao coração da professora, disse, certa vez, a um vizinho de cerca. Elas eram tão certas no mundo, ocupavam espaço com delicadeza e sutileza sobre o chão ou nos vasos, parecendo pintadas à mão pelo criador. Que bonito era vê-las em um entardecer, acariciadas pelo vento fresco do início da primavera!

Quando o vô Chico foi morar com Deus, Luísa ficou muito triste e quase secou também. Lembrou-se das palavras de vó Laura sobre o fim e de que o marido agora não precisava ser morto. As obras dele estavam vivas no caráter dos filhos, na felicidade dos netos e nas boas ações relembradas por amigos. Era ele agora xaxim também e quando fosse a vez dela, aceitaria em paz. Por outro lado, enquanto ainda não fosse xaxim poderia deixar a parte seca no vaso velho e transferir a parte verde a um novo local e ainda crescer. Aposentada decidiu se mudar para o sítio mesmo seus filhos e netos não aprovando a ideia.

Foi bom de verdade ter sido plantada em terra. Viveu quase dez anos bem vividos apesar do coração cansado que o médico disse que não tinha mais que seis meses de validade numa das vezes que passou mal. Ali de galhos secos e quase sem vida, pronta para ser xaxim queria que Hélio fosse sua samambaia nova.

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