Acampamento de Escritores
Um projeto CtrlAltVersœ

com email com Google com Facebook

Não poderá ser alterado no futuro

Termos

Redefinir senha

Cicatrizes

Até amanhã

Paul Law

Um casal se despede pouco antes de dormir sem imaginar que o dia seguinte mudará sua vida para sempre.

4 outubro 2025 16 minutos de leitura

Clique num paragrafo para adicionar uma marcação

Os olhos castanhos de Cecília me fitaram com canseira sob a meia luz do abajur, acompanhados de um sorriso murcho. Fecharam-se, sonolentos para que um suspiro lhes abrissem novamente. O sorriso dela secou ainda mais e a boca se abriu para emitir um sussurro de boa noite. Respondi-lhe com as mesmas palavras e acrescentei pouco depois:

— Até amanhã.

Não sei se ela me ouviu; se me chamou depois ou no que pensou. Minha esposa deitou-se às onze horas naquela noite, pois teria um dia seguinte cheio. Pouco antes, após o jantar trocamos palavras como de costume, ainda que superficialmente, oportunidade em que me falou do seu sábado com três grandes compromissos: pela manhã, iria ajudar na chácara em que sua irmã faria a comemoração dos seus anos; à tarde, teria os preparativos do bingo da igreja e à noite, trabalharia na barraca das prendas do leilão da quermesse. Ela era assim, sempre ocupada, ativa, prestativa e cheia de energia.

Cecília contava com quarenta e quatro anos de vida, dos quais vinte e quatro tinha passado comigo. É curioso pensar que mais da metade de sua vida foi ao meu lado; que talvez se arrependesse de alguma coisa. Costumo pensar que todos que me conhecem em algum momento se arrependeram, só não consegui perguntar isso a ela. Aliás, tem muita coisa que deveríamos ter perguntado um ao outro, mas faz parte da minha índole não falar muito, o que alguns julgam como insensibilidade e outros como arrogância, o que não tem importância, pois ela nunca demonstrou incômodo com isso. Eu, sim, tenho remorso por não ter dito tanta coisa…

De todo jeito, o que aconteceu é um fato e já se vão seus vinte anos. Para não ficar confuso vai aqui uma linha do tempo também em três partes: escrevo essas memórias com sessenta e cinco anos de idade, de algo que aconteceu quando tinha quarenta e cinco, sobre o fim de um casamento que durou vinte e quatro anos.

Dito isso, volto no tempo para contar que, assim que vi Cecília no sítio dos meus avós, imaginei nós dois nos casando. São coisas inexplicáveis que a gente sente ou sabe, assopradas por um anjo que conhece destinos e brinca de mistério. Como se ele pegasse o livro da minha vida e pulasse para o meio para me mostrar uma parte da história que ainda estava por vir e me fizesse assimilar a trajetória daquele personagem do início da narrativa. Talvez se tratasse simplesmente do desejo adolescente de amar pela primeira vez. Fosse qualquer o motivo, ao encontrar seus olhos amarelos naquela tarde, pensei neles maquiados e olhando para mim no altar da igreja.

A minha futura esposa era uma menina de dezesseis anos na época e trabalhava informalmente como babá para minha tia. Contou-me que a tia foi sua professora no sítio e que quando parou os estudos ela lhe ofereceu emprego. Assim, passava a semana na cidade cuidando da minha sobrinha e vinha à casa dos pais nos fins de semana. Embora não parecesse, pois ajudava servindo pessoas, trocando a menina, estava naquele sábado como convidada da aniversariante. Daí que nos encontramos, já de noitinha e nos falamos pela primeira vez, sentados num lance de escada.

— Cê é sobrinho da Janaína?

— Sou. Me chamo Rodrigo.

— Sou Cecília, prazer — ela estendeu a mão e nos cumprimentamos. Senti seu toque calejado e áspero.

Ela era magra, alta, tinha os cabelos castanhos cortados na altura dos ombros e franja. O rosto triangular, alvo, lábios finos, orelhas de bom tamanho, sem brincos. Não tinha busto grande, nem quadril largo, trajava um vestido amarelo de alcinhas e nos pés sandálias de borracha. Sobrancelhas grossas e olhos amarelos dos quais já comentei. Naquela noite eu reparei pela primeira vez que seus cabelos queimados do sol eram da mesma coloração dos seus olhos e achei interessante tal harmonia.

Lembro-me de que ela falou do trabalho de babá, de como a tia era bondosa com ela e do dinheiro que ganhava. Tinha vontade de comprar um tênis novo. Contou-me que o pai era pedreiro, mas estava doente e que tinha mais cinco irmãos, sendo três mais velhos e um mais novo. A mãe costurava, mas ficava mais tempo cuidando dos filhos. Sorria, se movimentava exageradamente ao explicar seus desejos e planos doidos. Falou que ia dar um jeito de continuar estudando, ser professora como Janaína e ter uma casa bonita na cidade. Os locais que mencionava, as pessoas que conhecia, eram comuns ao mundo em que eu vivia, mesmo aquele sendo nosso primeiro encontro. A impressão que tive foi de que ela tinha chegado um pouco atrasada para nos encontrarmos antes. Confesso que, além do que contei, pouco me recordo dos dizeres dela, mas muito dos gestos e esperanças. Era contagiante sua energia e alegria pelo futuro. Talvez não fosse má ideia ser professor, pensei.

Anos mais tardes nos reencontramos nas escadarias da faculdade em São João da Boa Vista, ela como caloura em Pedagogia e eu no último ano de Matemática. O sorriso com o qual me recebeu ao me reconhecer, foi especial para mim; como se, de algum modo, estivesse voltando para casa.

— O sobrinho da Janaína, acertei?

— Rodrigo — gesticulei positivamente — Que surpresa boa te ver.

— Não te disse que ia voltar a estudar?

Conversamos por tempo considerável, perdendo nossas aulas iniciais. Sentíamos que aquele reencontro significava alguma coisa. Dessa vez estávamos no tempo certo…

Foram dias de encontro em todo início e fim de aulas. De pedido de minha parte para “ficar”, era assim que chamávamos a intenção de beijar uma garota no meu tempo. Ficamos por várias ocasiões e o sentimento foi se firmando, tornando-se sério. Namoramos, terminei o meu curso e comecei a dar aulas em uma escola particular em Aguaí. Ela ficou mais dois anos na faculdade, sendo que no ano de sua formatura resolvemos alugar uma casa e conviver como casal. Nosso casamento mesmo aconteceu dali dois anos de convivência, quando Cecília já tinha passado no concurso público da cidade.

Daniela, nossa filha nasceu dali dois anos. Ela era linda, como a mãe. Nesse tempo, recordei e experenciei as palavras de tia Janaína sobre minha esposa: de como ela era amorosa com criança e de suas habilidades para o cuidado com elas.

Nossas vidas seguiram o ritmo rápido de crescimento de Daniela, o que era um pouco assustador. A atenção toda voltada às necessidades da pequena tornava encantadora cada fase da vida dela. A magia de ser pais nos enfeitiçava de maneira irresistível, de modo que cinco, dez anos pareceram passar em um ano. Continuei professor daquela escola particular, minha esposa se efetivou na prefeitura e Daniela já estava no quinto ano, o que nos traz de volta à noite do início dessa história.

Antes, porém, cabe mencionar que minha esposa amava ser professora. Era constante o seu envolvimento em projetos que lhe tomavam mais tempo do que os cronometrados em sala de aula. Não posso contar as vezes que chegou em êxtase por algo que ocorreu na escola; por uma reação de aluno, uma conquista, um projeto que deu certo. É claro que nem tudo era perfeito, havendo dias de desapontamentos e frustrações, mas estes sempre foram poucos. Bem diferente do que eu sentia, ela não permanecia aborrecida. Não estava naquela sexta-feira, sua última nessa terra.

Pelas duas da madrugada do fatídico sábado, Cecília se levantou. Devia estar inquieta, sentindo dores, não sei. Demorei meia hora para notar sua falta e mesmo depois de percebê-la continuei deitado, supondo que estava apenas no banheiro. Só quando se passou mais meia hora sem seu retorno que resolvi procurá-la, o que culminaria na visão mais terrível de toda a minha vida. Não imediatamente, obviamente, pois a princípio ainda acreditava que ela estava tendo apenas alguma dor de barriga.

A luz acesa do nosso banheiro, a porta trancada. Calmamente chamei. Depois bati, chamei de novo, nada. Insisti, sem resposta. Foi só então que me passou pela cabeça que algo mais grave estava acontecendo. Empurrei a porta com os ombros, não consegui abri-la. Gritei o nome dela, usei o pé, chutei com força a porta, fazendo a madeira se romper me revelando Cecília deitada no banheiro, retorcida. Aproximei-me desesperado, ela tinha os olhos abertos, a boca semiaberta, respirando com dificuldade. Agarrei-lhe a mão, mudei sua posição para uma mais confortável. Minha mulher me olhava com aflição, desespero, não conseguia emitir palavra. Apertou minha mão.

Coloquei-a no carro, fui em velocidade ao pronto-socorro. Parei em local indevido, na frente da porta dupla do estabelecimento.

— Socorro — consegui dizer na entrada do hospital, ofegante, com Cecília nos braços.

Daí em diante tenho lembranças confusas. Ela sendo retirada dos meus braços sem eu saber se já era tarde demais; a correria dos enfermeiros, os médicos, a porta se fechando. Alguém me dizendo que ela estava sendo socorrida e que era para eu me acalmar. Eu pensando no que fazer se Cecília não voltasse para casa; como contar à Daniela que seríamos só nos dois dali em diante. Um pesadelo, tudo aquilo, pensei. Rezei para que acordasse no meu quarto e ela estivesse de bruços, dormindo calmamente como de costume. Uma mão me acordou mesmo, mas não era sonho, apenas meu cunhado perguntando sobre o ocorrido. Chegaram mais parentes e amigos.

A notícia definitiva veio com a manhã: a minha esposa tinha tido um infarto e não resistiu. Na hora me lembro de não ter chorado, tentando absorver aqueles dizeres e consequências. Precisava ser forte por nossa filha, lembro-me de ter pensado.

Ainda não tenho certeza do que aconteceu nos primeiros dias após o falecimento de Cecília; de como conseguimos seguir adiante sem ela. Sei do apoio de parentes, principalmente de minha mãe, sogra e tia. Elas se revezaram na tarefa de cuidar de mim e de Daniela nos primeiros dias, mas tinham suas vidas, afazeres, o que as impedia de ficar definitivamente. Não podia exigir nem esperar isso delas, também. Tentei, primos, empregados, mas ninguém podia preencher o espaço de Cecília, ainda que minimamente. Eu tinha que aprender tarefas que antes eram de responsabilidade da minha mulher, o que foi muito difícil. Teve vezes que pensei ser impossível; na possibilidade de desistir, fugir, arrumar alguém melhor para cuidar de Daniela. Pequenas vitórias, no entanto, como cozinhar pela primeira vez, operar a máquina de lavar de forma aceitável, foram mudando minha perspectiva.

Daniela obviamente sofreu a perda da mãe, mas menos do que eu pude notar. Mais tarde, confessou que se manteve firme para não me deixar triste, sendo que confidenciei a ela que tive o mesmo plano. Sofríamos os dois, mas pensávamos um no outro e isso foi essencial para seguirmos. Com os anos, aquele dia foi se tornando assunto delicado para nós, ao mesmo tempo em que se estabelecia novas rotinas. Tornamo-nos mais do que pai e filha, amigos, cúmplices de uma dor comum. Como já disse, a vida seguia, o que não foi muito justo com Cecília, pois ela foi se tornando lembranças cada vez mais vagas e distantes para aqueles que a conheceram.

É claro que o que se sucedeu à Cecília me serviu de lição e mudou os meus dias vindouros. Não tive planos; não guardei dinheiro, deixei de marcar coisas para o futuro. Vivi meus dias enquanto eles se passavam e isso acarretou consequências, como a incompatibilidade com novos relacionamentos e a falta de compreensão de meus familiares. Tão desprendido, irresponsável e relapso, ouvi deles. Hoje sou velho, Daniela tem sua profissão, sua família e vive no exterior.

Eis que esta noite, agora totalmente no presente, de frente a este computador portátil, me lembrei de meu grande e único amor para escrever um pouco de sua história, a fim de que não seja esquecida completamente pelo menos enquanto eu viver. A vida de Cecília se encerrou precocemente no meio de tantos planos; tantos sonhos e objetivos, que é quase impossível de acreditar no que lhe aconteceu.

Imaginei por muitas vezes como teria sido se ela tivesse acordado na manhã seguinte, e ido ao aniversário de sua irmã, à igreja mais tarde. Na segunda-feira trabalharia normalmente e assim seria até a velhice. Talvez estivesse aqui ao meu lado agora, marcada pelos anos que seguiram sem sua vida.

Só que ela não está, não esteve, mesmo eu ansiando febrilmente pelo nosso reencontro. Será essa noite, amanhã?

O que achou de Até amanhã?

Comentários

Deixar um comentário

  • Uma história sensível, e bem escrita, que toma seu tempo para nos apresentar recortes de uma vida juntos. Parabéns!