Não pensaria duas vezes
Breve conto sobre um pai que deve escolher dar sua vida para salvar seu filho da morte.
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Sempre considerei ser pai como a coisa mais incrível do mundo, mas nunca imaginei uma situação como esta de ter que escolher entre minha própria vida e a vida do meu filho. Disse muitas vezes que não pensaria duas vezes se tivesse que dar a vida pelo Marcelo; que se ele vivesse, viveria com ele.
A enfermeira repete a pergunta, duvidando se eu havia entendido o que estava sendo sugerido. Confirmo com um movimento de cabeça e ela reforça que o tempo é curto para decidirmos.
Viver com ele. Nunca uma frase tão piegas fez tanto sentido como agora. Um sentido que ainda tento entender completamente, já que se eu aceitar o que é proposto, terei o meu coração batendo no peito do meu filho. É tão difícil decidir…
Sou covarde por ter medo da morte? Egoísta por, talvez, não querer salvar Marcelo? Ele é apenas uma criança e eu, bem, eu já vivi meus trinta e oito anos. Como Júlia vai me julgar se eu disser sim? Se disser não? Talvez ela nunca saiba se eu me negar, mas, certamente, saberá da concordância. Ela me verá como um herói; um pai de verdade. Só que eu não vou estar lá para ver.
Pâmela é este o nome da enfermeira. Ela explica que os outros órgãos também serão doados e que eu salvarei muitas vidas com meu sacrifício. É a única chance de salvar meu filho, mas entendia o fato de eu preferir deixá-lo morrer.
O certo é fazer o transplante, penso e verbalizo. Pâmela sorri, se levanta e informa que vai preparar tudo. Eu concordo com um gesto e ela me deixa sozinho. Olho pela janela, vejo as folhas balançarem por causa do vento. Ouço passarinhos, é quase onze horas da manhã. Terei quantas horas ainda?
Então, eu choro. Não, não vou conseguir. Amo meu filho, mas não posso fazer isso. Abro a porta e fujo dali, fujo daquele dilema, de ser pai e marido. Não posso morrer. Não vou morrer.
Já é noite e eu não tenho mais um filho. Não tenho mais nada.
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