Petricor
Até onde um pai pode ir para salvar a vida de um filho
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O apito constante das máquinas parecia um metrônomo, dando compasso a angústia que lacerava minha cabeça.
Faz semanas que eu não dormia. Faziam meses que Marcelo estava em coma. Ainda sem um doador compatível, não lhe resta muito tempo.
Eu era o único ao lado do seu leito. Vinte e quatro horas por dia. Sete dias por semana. Sofia não conseguiu mais. Em casa, ela agora está no seu próprio leito. Eu não a culpo. Ela está tão devastada quanto eu. Eu tento resistir um pouco mais…
— Senhor Carlos? — sou arrebatado dos meus pensamentos. — Você pode ir pra casa. Não há nada que possa fazer aqui. Agora só nos resta esperar.
Após verificar os equipamentos e o estado de Marcelo a enfermeira volta a me deixar sozinho, a esperar, apenas esperar… Mas o tic toc continua apitando…
Deixo o hospital. Estranho o céu e seu brilho, o calor. Estou exausto, arrastando meu corpo até o carro.
Pelo estacionamento, as pessoas caminham com pressa, coradas, felizes… Sorrindo?… Como elas ainda podem sorrir?
Me debruço no volante do meu carro. Deus, como continuar vivendo? Lágrimas pingam levantando a poeira no chão do carro.
Não posso deixar nossas vidas acabar desta forma. Desde quando nos conhecemos, o sonho de Sofia era ser mãe. Engravidar foi um desafio, e quando finalmente aconteceu… éramos as pessoas mais felizes do mundo.
E agora… Meu Deus… É difícil respirar. Sinto o cheiro da sujeira úmida. Um cheiro estranhamente familiar.
Respiro fundo. Me recomponho. Eu não poderia ceder agora. Eu era o último de nós que ainda conseg…
Limpo meu rosto enquanto tiro meu celular do bolso. Sem bateria. Procuro o carregador no porta-luvas e ligo no painel do carro. O aparelho parece demorar uma eternidade para ligar.
Quando finalmente consigo entrar no sistema do hospital, vejo o que procuro na ficha de Marcelo: A-positivo.
Rapidamente tiro minha carteira do bolso, pego a habilitação, eu precisava ter absoluta certeza… A-positivo. Meu corpo pareceu receber uma injeção de adrenalina. Meu coração batia dolorido, mas não mais de tristeza.
É preciso me preparar. Planejo uma lista de tarefas. Nada pode dar errado.
Vou ao mercado, compro tudo que uma última refeição deve ter. Depois vou pra casa, e a preparo com cuidado.
Acordo Sofia sem pressa, seu rosto está inchado e manchado. Ela precisa de uma boa refeição tanto quanto eu.
Enquanto comemos em nossa sala de jantar, digo a ela que vai ficar tudo bem. Que encontraram um doador, e que ela não precisa mais se preocupar. Ela chora as lágrimas que já não tem. Nos abraçamos rodeados das fotografias e nossas lembranças.
Depois de comermos, digo que ela deveria voltar a dormir. Ainda fraca, ela concorda. Me despeço dela, mas imagino que ela não saiba o que isto significa. Então eu também me desculpo enquanto beijo seu rosto pela última vez. Na cabeceira de nossa cama, uma foto de nós três juntos, correndo da chuva, chegando na casa de meus pais. Sorrindo.
Vou ao escritório que temos em casa, escrever a carta e dar uns telefonemas.
Após algumas horas, na gaveta da escrivaninha, dentro de uma caixa, sob duas fechaduras, pego e carrego a 9mm que desejei nunca ter que usar. É difícil fazer isso sem tremer.
Volto ao carro, não quero causar mais transtorno que tudo isso trará a Sofia. Nem consigo imaginar, mas não tenho outra opção…
Volto ao estacionamento do hospital. Olho para a janela do quarto de Marcelo. Apesar de estar noite, a luz está ligada. Uma luz amarela, fraca. Marcelo tem medo do escuro e sorrio pensando que as enfermeiras se lembraram disso.
Obrigado. Obrigado por tudo, filho.
Quando pego a arma, começo a ouvir o som da chuva fraca salpicando o chão ao meu redor. Nervoso, respiro fundo e senti seu cheiro característico… Me fez lembrar dos raros prazeres que a vida me deu. Do rosto de Marcelo recém-nascido nos meus braços. Do seus primeiros passos desastrados. De suas primeiras palavras. De todas as alegrias que meu coração sentiu, e que agora eu daria a ele. Respiro fundo uma última vez e sinto o cheiro de
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