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Origem=Cobiça=Opressão

Fagner JB.

Prólogo de O³

22 janeiro 2026 6 minutos de leitura

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Em fuga, a proa do AFR Úrsula ferozmente abria caminho no lixo espacial. A nave acelerava em níveis inéditos. Mas isto representava apenas quinze por cento da potência de seus propulsores termonucleares — mais rápido que isto sua tripulação não se sentiria confortável pela força g, pois o AFR Úrsula não era mais um espaciobarco militar.

Antes, sendo usado apenas pelas forças armadas, o espaciobarco era um ponto estratégico, que circundava o planeta a cada três horas, o monitorando e destruindo satélites não autorizados. Agora, nele vivia parte dos poucos remanescentes da Europa.

Abaixo, duzentos quilômetros de atmosfera inabitável. O aquecimento global havia chegado ao seu último estágio. E como esforço final para salvar a vida humana na Terra, os imensos espaciobarcos militares de todas as nações passaram a receber moradores permanentes, selecionados por cargo, talentos, promessas, ou sorteio.

Porém nem todas as nações possuíam naves militares ou verba para tamanho feito. E nenhuma delas possuía espaço para todos.

Enquanto os últimos terráqueos-não-resgatados observavam os últimos foguetes traçando o céu deixarem a atmosfera da Terra, os servidores públicos transmitiam ininterruptamente os 236 episódios de Rachel, Monica, Phoebe, Joey, Ross e Chandler aos poucos televisores que ainda funcionavam aos 60ºC.

Por gerações, a única realidade conhecida pelo restante da humanidade fora o céu escuro, o brilho fraco do Sol e a guerra incessante por recursos.

Agora, o capitão do AFR Úrsula tinha uma decisão difícil a fazer: arriscar a vida de uma fração de sua tripulação, acelerando a nave além do recomendado; ou se deixar embarcar pelos invasores estrangeiros e comprometer toda a população. Ou pior, ser destruído e saqueado. Trêmulo, ele pegou o rádio e emitiu a ordem.

Nos alto-falantes de toda a nave o alerta estridiu e se repetiu continuamente, ao mesmo tempo que os propulsores passaram a expelir exponencialmente mais energia. Abaixo do casco da nave, um a um, mais tubos passaram a aspirar ainda mais calor. Na enfermaria, os funcionários corriam para acudir os doentes. Colocando o quanto podiam nas câmaras de anulação de gravidade; não conseguindo chegar a tempo para salvar todos.

A nova rota iria ao encontro de RGK Kingslav, o mais antigo aliado do AFR Úrsula, que confirmou ainda ter munição para ao menos afastar os perseguidores. A interceptação com o aliado iria ocorrer em quinze minutos. E aproximadamente na metade deste tempo, era preciso acionar os propulsores opostos para a desaceleração — o momento que o capitão mais temia para a sua tripulação civil.

Temor que o perseguidor do AFR Úrsula não tinha.

CTS Jīnjī xīn era uma nave de rapina. Originalmente construída para a destruição e recolhimento de satélites aposentados; que quando a Terra não precisou mais receber esses materiais, passou a realizar a reciclagem a bordo. E quando a demanda interna aumentou, ampliou também seus alvos em potencial. Sabiam que para maiores recompensas era preciso maiores riscos.

Em perseguição, CTS Jīnjī xīn mantinha uma aceleração constante de 15g, mas em algumas manobras, e principalmente durante desacelerações bruscas, poderia chegar a até 40g. Por isso, além dos trajes especiais, toda a tripulação permanecia em cápsulas individuais verticais que giravam de acordo com a direção da aceleração.

Na velocidade atual, sua proa gera-detrito iria colidir com o AFR Úrsula em treze minutos.

No RGK Kingslav, as sirenes também soavam. A tripulação militar se mobilizava rapidamente, correndo ao seus postos. Os batedores tentavam localizar o alvo com binóculos a laser no imenso horizonte. No centro de controle de lançamento, os técnicos calculavam a trajetória em tempo real assim que recebiam as possíveis coordenadas.

Quando o alvo foi avistado e confirmado, e a trajetória travada, o torpedo foi lançado, cortando o espaço numa velocidade impressionante.

Porém, prevendo o impacto com precisão, CTS Jīnjī xīn o interceptou com uma mina explosiva a poucos metros de seu casco.

Com a trajetória atualizada, um novo torpedo é lançado, o último alocado a estibordo do RGK Kingslav. E girar a espaçonave para novos disparos exigiria minutos que eles não tinham.

Sem mais minas de defesa, CTS Jīnjī xīn fez algo nunca antes visto na história recente: para desviar do torpedo adentrou a atmosfera terrestre.

Enfrentando temperaturas altíssimas pela sua velocidade elevada, chamas surgiram ao redor de sua proa e alastraram-se pelo resto do casco, até desaparecer da vista das outras duas naves, sob o silêncio de suas tripulações.

Teria o CTS Jīnjī xīn condenado a vida dos milhares a bordo?

Continua.

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Comentários

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  • Um começo promissor, cheio de ação e com um final empolgante. Gostei do modo como você deu destaque às naves neste início; uma forma original de narrar. Que venha a parte dois que se passará aqui na Terra (pelo que tudo indica).