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Dança das cadeiras

Paul Law

Um menino com passado criminoso tem a chance de fazer a diferença na gincana da escola

13 janeiro 2026 9 minutos de leitura

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A música “Flor do Reggae” tocava na caixa de som encostada na parede bege, bem perto da porta azul que dava acesso à sala de aula. No médio pátio à frente via-se vários grupos sentados em cadeiras retiradas das salas e bancos do refeitório, separados pelas cores que traziam em suas camisetas: azul, amarelo, vermelho e verde. A tradicional gincana da escola chegava ao fim com aquela prova, a dança das cadeiras. Verde e azul estavam empatados nos pontos e restava apenas uma cadeira. Era o momento mais importante da vida de Iran, aquele que defendia o time azul.  Para a maioria dos presentes, no entanto, a permanência do aluno do 9º ano C até o fim afigurava-se impossível; no mínimo improvável. Como explicar que ele não deveria estar ali; que havia um engano.

Não. Era fácil ouvir essa palavra perto de seu nome nos corredores da escola. O próprio adolescente já estava acostumado, mas desde o início da prova da dança das cadeiras, ali no centro de toda atenção, ele viu chance de sim, vislumbrou glória e ela seria maravilhosa!

— Calma Febem, você não ganhou ainda — Marcelo, o rival do time verde lembrou-lhe de onde vinha e de que a coroação só viria com a vitória.

Iran não respondeu ao colega de escola. Estava acostumado a calar-se, baixar a cabeça e até a acreditar nos muitos nãos que recebera ao longo da vida. Eles quase sempre vinham acompanhados de previsões nada animadoras sobre seu futuro.

Seu futuro, uma folha de sulfite na qual poderia desenhar qualquer coisa, foi isso que um professor da fundação lhe disse certa vez, percebendo que Iran tinha dom para desenhar. Aliás, os desenhos sempre foram uma forma do adolescente entender a si mesmo e o mundo à sua volta. Sentia-se protegido pelo lápis, pela imaginação e pela satisfação de mostrar seus resultados aos colegas. Não gostava de falar, ler livros grossos, nem de escrever redações, mas sua atenção era facilmente atraída por charge de velho jornal, tirinha, gibi amaçado. Por falar em tirinhas, eram elas o que o livro de Língua Portuguesa tinha de melhor!        

O apelido Febem, obviamente, era por causa do tempo que passou recolhido em uma unidade da fundação CASA e ele jamais comentava como acabou detido. Tinha deixado a fundação, mas ela não tinha lhe deixado, pois quase todo mundo o tratava como se ainda estivesse fazendo algo de errado, mesmo ele não entendendo bem o motivo.        

— Ele mora com a tia, o pai roubava carros e foi morto pela Polícia — já na primeira semana de aulas ouviu de uma menina enquanto pegava o prato da merenda.

— A mãe dele é prostituta, usuária de drogas — foi o que um colega de classe disse.  

Tinha aqueles que não falavam nada, viam nele alguém já perdido, um futuro bandido, quem lhes assaltaria amanhã, envolvido com entorpecentes, o sujeito que teria um triste fim. Havia professores que davam atenção do jeito errado a Iran, fingindo compaixão, amizade ou oferecendo coisas. Verdade, ele aprendeu logo a perceber.    

A inspetora Neusa, tratava-o com certa dignidade. Reparou que a funcionária da escola lidava com todos do mesmo jeito, não favorecendo este ou aquele aluno. Ela chamava a atenção porque demoravam a entrar na sala ou porque chegavam atrasado. Gritava com quem corria pelos corredores e advertia quem falasse palavrão. Por isso julgavam que ela não gostava de ninguém.

Iran sentia que a inspetora se preocupava realmente com alguma coisa que ele não sabia definir. De uma das poucas ocasiões em que trocaram palavras, ouviu de Neusa:

— Chegar atrasado e muito mais do que só se atrasar. 

Nos intervalos reparava na funcionária pública dizer aos outros que suas faltas eram muito maiores do que imaginavam; que um lixo jogado no chão dizia muito sobre alguém; um prato não lavado, uma vestimenta inadequada, palavras de baixo calão. Obesidade…

Era como se para ela houvesse uma regra de comportamento escondida; da qual todos tinham certo conhecimento, embora não admitissem ou até mesmo dissessem o contrário. Uma força que definia pessoas e coisas, fazendo-as serem atraídas. Bem fica perto de bem; certo junto de certo. O contrário também é verdade. 

Se ela era tão rigorosa com eles que cometiam erros que todos cometem, imagine o que pensaria dele se soubesse o que tinha feito, foi o que pensou ao cruzar o olhar com o de Neusa no meio da música interpretada por Ivete Sangalo. Ele a notou baixar um pouco a cabeça e sorrir, num gesto que não soube interpretar se era aprovação.  

Seus olhos correram pela torcida do time azul, seu time. Eles pulavam, vibravam com a chance da sua vitória. Chegou a ouvir o coro repetir a palavra Febem por várias ocasiões, incentivando-o.  Quando alcançou as cadeiras do time verde viu a torcida também usar a palavra Febem, mas para ofendê-lo.

A mesma palavra, dois significados diferentes.

Então, a música parou. O cérebro de Iran respondeu imediatamente ao comando de impulsionar a pernas a ganhar o espaço da última cadeira e consagrar-se campeão da dança das cadeiras, mas o corpo o traiu. Demorou mais do que a imaginação delineou para se mover, o que deu ao oponente certa vantagem. Marcelo avançou primeiro rumo ao acento que se encontrava a poucos centímetros de si, mas julgou que investir contra Iran fosse mais vantajoso do que consolidar a vantagem. Dessa vez o cérebro de Iran respondeu bem ao avanço do adversário, dando o comando certo às pernas que responderam com firmeza. Os joelhos um pouco flexionados, a coluna levemente inclinada e o empurrão de Marcelo encontrou resistência. Foi o tempo necessário para que a vantagem do oponente fosse revertida e o adolescente de azul sentasse primeiro na cadeira, tornando-se campeão.

A torcida do time azul avançou pelo pátio aos gritos de vitória, festa, vibração! Abraçaram Iran de um jeito que ele nunca havia sido abraçado: como vencedor. Ele ficou apreensivo no início da comemoração, mas sentiu verdade na reação dos colegas. Ele era um deles!

A coordenadora Laura bateu no microfone pedindo ordem. Sorrindo deu os parabéns ao aluno Iran Figueiredo Mendes Junior do 9º C e realizou a contagem dos pontos de todas as cores da gincana. Fez um mistério desnecessário sobre as duas primeiras posições. Declarou, enfim, o time azul como campeão da gincana escolar do ano de 2023. Procedeu-se a entrega do troféu e das medalhas.

Aos poucos o frenesi pela vitória foi passando e os meninos e meninas e misturaram num bonito colorido sobre o pátio. Iran carregava a medalha de campeão no peito, sentado em um banco, sozinho. Neusa se sentou ao seu lado e disse:

— Isso que você tem aí não é só uma medalha de campeão da gincana. 

Era a primeira vez que o adolescente viu a inspetora sorrir. Ele sorriu em retribuição, o que também era raro. Considerava-se ali, naquele momento, um vencedor. Um vencedor do time azul.       

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