Todas as noites
Um filho que tem vergonha de encontrar sua mãe o esperando no meio da rua.
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É quase onze horas e acabo de sair da escola. Ando pela rua movimentada e barulhenta de colegas, carros, motos e bicicletas que vão se dissipando conforme o prédio em que curso o primeiro ano do ensino médio fica distante. Quando já deixei dois quarteirões para traz e estou sozinho, consigo vê-la. É minha mãe que em todas as noites me espera no meio da rua.
Bem, isso é uma lembrança que foi despertada em mim por causa de onde estou indo. Mesmo assim, acho curioso como fragmentos do nosso passado que até então pareciam tão escondidos surgem na nossa cabeça. Detalhes tão sem importância naquele tempo; que até me causavam desconforto, já que eu detestava quando algum amigo via a mãe no final da rua me esperando e tirava sarro de mim por isso, soam com outro significado depois que me tornei adulto. Adulto, palavra complicada…
É que não sei se sou um adulto agora, mas, com certeza, mudei desde aqueles encontros com minha mãe no meio da rua e se eu pudesse voltar no tempo a receberia com o mesmo sorriso que ela sempre tinha nos lábios quando nos aproximávamos. Consigo lembrar de várias noites; de uma em que ela estava com a perna quebrada e usava uma bota estranha e voltávamos mancando para casa; de outra em que ela foi de touca e muitas blusas; de uma em que estava com dengue. Em todas elas a primeira coisa que fiz ao vê-la foi me zangar: não deveria vir com a perna quebrada; está muito frio; se recuperando da dengue! E ela ria, dava de ombros e mudava de assunto. Gostaria de tê-la abraçado e agradecido, mas eu tinha vergonha…
Contava com quinze anos quando comecei a estudar à noite. Mudei de período por causa do serviço no supermercado perto de casa, o que achava ruim, no começo, porque tinha sido o local de trabalho da minha mãe. Era terrível ouvir toda manhã perguntas sobre como estava a dona Irma ou os incessantes elogios ao seu caráter, sua disposição para trabalhar. Com o tempo, os aborrecimentos foram diminuindo pelo costume e pelo fato de eu ter meu próprio dinheiro. Ajudava pouco em casa, apenas com algumas coisas para comermos. Morávamos eu e minha mãe numa casa de fundo, de três cômodos. A mãe, conhecida pelos vizinhos como dona Irma, era quem trabalhava mais e pagava as contas. Tinha meio que dois empregos: na padaria do bairro e como faxineira esporadicamente.
Você deve estar se perguntando ou imaginando alguma coisa sobre o meu pai. Talvez que ele fosse algum bandido, um homem morto, um desconhecido ou simplesmente alguém que não quis ser pai e desapareceu. O que posso dizer sobre, é que ele sumiu mesmo e provavelmente nunca quis ter um filho com minha mãe. O Júlio, assim é que ele se chama, era um sujeito de boa condição financeira que morava na capital e vinha para cá nas férias. A vó Hilda dizia que ele era casado, empresário e pai de três filhos. Escutei ela discutir com a mãe uma vez quando a visitamos:
— Cê tem que colocar o sacana na justiça; ele tem que pagar pensão!
A minha mãe mudava de assunto. Fui percebendo que toda vez que Irma começava a se magoar com alguma coisa, trocava o tema da conversa, baixava os olhos, sorria sem jeito. Gestos que naquele tempo eu achava tolice, mas que, hoje, relembro com carinho.
A mãe nunca pediu um centavo ao homem que a engravidou; nem exigiu que se aproximasse ou me conhecesse, o que me aborreceu naquele tempo. Como ela podia me afastar do meu pai? Que direito tinha de não pegar o dinheiro que era meu por lei? Eu ameacei várias vezes de ir encontrá-lo, o que fiz, de fato, depois de adulto. Só então entendi o que a dona Irma fez: ela me protegeu. Também me protegeu nos dias mais complicados que tivemos; tempos de escola de novo, quando me esperava no meio da rua todas as noites. Proteção, para ela, tinha um significado peculiar, você verá.
O que aconteceu foi que por influência de amigos, comecei a beber regularmente. Comentávamos de churrasco dos sábados, de bebedeira e ressacas, achando tudo vibrante e importante. Era o que me unia aos outros da minha idade; dava-me acesso às garotas e à felicidade. Nos encontros festivos começou a aparecer cigarros e depois drogas. Todo mundo participava e eu me sentia importante.
Depois de um final de semana em êxtase me vinha a segunda-feira ruim. Era como se o pêndulo da vida ao ir muito para o lado bom, voltava na mesma proporção ao lado ruim. Ficava irritado, não conseguia me concentrar e tinha uma canseira insuportável. Eu queria ficar entorpecido o maior tempo possível.
Tal comportamento começou a ser percebido pelos meus superiores no supermercado. Chamaram minha atenção, ganhei advertências por chegar atrasado, mas consegui me manter no emprego. Na escola, dona Irma foi chamada pelo diretor e prometeu que resolveria tudo comigo. Ela bem que tentou conversar sobre cigarros, mas eu me irritei com ela. Por fim, pediu apenas que eu pensasse no que vinha fazendo.
Então, teve uma vez que minha mãe me esperou e eu não cheguei. Amanheci na casa de um desconhecido amigo de um amigo meu. Não fui trabalhar e voltei para casa perto da hora do almoço ainda meio tonto da noite anterior e já na rua notei algo estranho, pois vários vizinhos abriam as janelas de suas casas ou apareciam na calçada para me recepcionar. Olhos de desaprovação dos quais eu me lembro bem de devolver com fúria. Por que não vão cuidar das suas vidas? Era a pergunta que eu fazia em silêncio.
Eu tinha a chave e entrei. Não demorou para ouvir o freio da bicicleta da minha mãe pouco antes de ela entrar nervosa pela porta que eu entrei minutos atrás:
— Otávio, meu Deus, você tá bem? Fui à polícia, fiz boletim, exigi que fossem procurar por você!
— Claro que tô, mãe. Só fiquei na casa de um amigo. Cê que é preocupada demais.
Ela baixou os olhos, engolindo as palavras que tanto queria me dizer. Notei lágrimas quando levantou de novo o rosto para me falar:
— Tem pão, mortadela. Vou passar um café rapidinho — e sorriu. — O seu Carlos vai entender se eu demorar um pouco, não é? Nunca falto e sempre faço hora. Falei pra ele que precisava vir em casa saber se você tinha aparecido. Estou tão feliz que esteja bem!
Aquele riso lacrimoso foi uma visão que guardei sem entender bem o motivo. Lembro-me apenas de ter a sensação de que minha mãe sofria demais, mas atribuía a causa ao seu trabalho, nossa falta de dinheiro e sua preocupação exagerada comigo.
Senti desconforto ao vê-la preparar o meu café com tanto carinho; era a culpa por ser o motivo de sua preocupação e desgosto, faço esta reflexão agora, enquanto compartilho essas memórias. Se ela fosse como as mães normais que ralham, brigam com seus filhos por fazerem coisas erradas tinha sido muito mais fácil. Só que a dona Irma nunca levantou sua voz comigo ou com alguém, pelo que sei; jamais culpou os outros ou lamentou por alguma coisa. A vó disse, uma vez, uma coisa sobre minha mãe que também guardei; que ela fazia o que tinha que ser feito, observação mais profunda do que parece num primeiro momento, concorda?
Depois desse episódio alguma coisa começou a mudar em mim. Na oportunidade em que meus colegas comentaram da farra que fizemos na noite anterior só consegui pensar em minha mãe, desesperada, procurando por mim. Enquanto eu festejava ela estava na delegacia sendo caçoada por policiais que bem sabiam o que eu estava fazendo. Não havia ninguém do lado dela para consolá-la, ouvi-la. Quantos segredos guardava sozinha?
Após as aulas, dona Irma estava lá no meio da rua me esperando. Pude ver sua silhueta inquieta de longe, imaginando, talvez, que eu não viesse mais uma vez. Assim que ela me identificou, sorriu. Meu coração ficou um pouquinho mais leve e acho que o dela também. Assim foi pelos dias que se seguiram até a desconfiança pela minha ausência desaparecer completamente.
Fui pensando em tudo que minha mãe suportava calada e em todas as vezes que me esperava. Fosse na rua, nas voltas de festas ou jogos de futebol, em todos os meus retornos, ela sempre esteve pronta para me receber. Quis estar preparado para ser recebido e isso foi mudando meus hábitos.
Terminei aqueles anos de ensino médio com aproveitamento regular. Continuei trabalhando no mercado perto de casa, subindo de cargo. Mudamos da casinha que morávamos para uma melhor, pois comecei a ajudar em casa, sendo que a minha renda passou a ser maior do que a da minha mãe. Conheci a Eduarda, trouxe-a para morar com a gente mais ou menos na mesma época em que minha mãe descobriu o câncer.
— Tô feliz que você não vai ficar sozinho, filho — ela me disse quando conversamos sobre tratamento, chances de cura e remédios.
Como você já deve ter percebido, contei tudo isso depois de não poder dizer à minha mãe o que pensava dela; o quanto a amava, reconhecia seu sacrifício e amor por mim. Com culpa, remorso por ter sido cruel com ela em várias ocasiões mesmo ciente de que foi seu exemplo que moldou minha personalidade. Essas coisas de mãe não têm lógica nem explicação.
Para o carro numa das vagas diagonais perto do muro descascado do cemitério. Não são todos os dias, mas venho ver a mãe sempre que posso. Trocar suas flores, cuidar do seu túmulo com o zelo que ela tinha com sua casa. Quando chegar a minha vez de ir para o céu, sei que no meio de uma nuvem vou ver a dona Irma me esperando com aquela sua toca ridícula e sorriso lindo. Ela vai me dar a mão e voltaremos juntos para casa.
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