Uma cerveja
Um homem misterioso entra em uma padaria anunciando ser um assassino. Ele só quer tomar uma cerveja…
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Ele tinha as mãos trêmulas e aparentava consternação quando Marina o serviu na padaria. Havia chegado transtornado, chorando, sujo e ela não soube o que fazer ou dizer, além de observá-lo gesticular negativamente e se sentar em uma cadeira lateral, perto da mesa quadrada e branca. Depositou os cotovelos sobre a lata e levou as mãos ao rosto para esconder o choro. Tinha sangue na manga do moletom acinzentado e velho?
— Eu matei meu filho — falou o homem, pouco antes de voltar a chorar copiosamente.
— Como é? — perguntou Marina, ainda digerindo o peso daquelas palavras.
— Sou um assassino…
Dona Sara tinha que deixá-la sozinha justamente hoje?
— Pega uma cerveja pra mim, faz favor? — pediu o sujeito entre choro.
Ele era um negro magro, alto, de sandálias de borracha, bermuda jeans descorada, blusa de moletom cinza, velha. Tinha o rosto limpo, sobrancelhas rebeldes, olhos fundos, lábios descoloridos. Aparentava ter uns quarenta anos bem sofridos. Talvez fosse pelo momento, pensou a atendente, refletindo sobre a aparência do rapaz que acabara de pedir-lhe bebida. Nunca o tinha visto na padaria, nem no bairro, cidade.
Olha que Marina conhecia bastante gente por ali; pessoas que passavam na padaria de madrugada para tomar café antes de irem trabalhar na roça; gente que chegava antes dela para tomar a primeira cachaça do dia; amigos da sua patroa, familiares dela e seus. Tantos outros que conhecia dali ou da escola, pois era comum, por ali, as pessoas se conhecerem ou, pelo menos, conhecerem algum parente da pessoa.
Entrou Ezequiel, era quase onze horas da manhã. O amigo da funcionária de dona Sara estranhou o homem sentada lateralmente, enchendo o copo com o líquido dourado e bebê-lo rapidamente. Dirigiu-se ao balcão, perguntou:
— Quem que é?
— Sei não. Acredita que ele disse que matou o filho?
— Explica isso direito, Mari…
Não tinha muito o que explicar, respondeu ela. Sabia só aquilo mesmo.
Ezequiel olhou disfarçadamente para o cara que tirava a garrafa do invólucro de plástico vermelho que mantinha a bebida gelada e pedia uma segunda cerveja. Não conseguia julgar a pessoa pela aparência; ele mesmo não gostava de ser definido pela sua. Marina foi uma das poucas que fez isso: não o enxergou como estava vestido.
Ezequiel vivia entre lapsos de embriaguez e o seu natural estado de homem trabalhador, de caráter e benevolente. Ele conhecia muitas histórias, tinha um humor afiado, sabia de filosofia barata, era bom ouvinte e respeitoso. Tudo isso fez surgir entre ele e Marina uma amizade muito sincera. A menina até pediu à mãe que arrumasse para ele um emprego numa empresa do prefeito da cidade. Ele se vestiu com sua melhor roupa, sem rasgos e relativamente nova; calçou sapatos. Pena que Ezequiel tomou umazinha antes de ir à entrevista e o cheiro de cachaça o fez ser reprovado.
O cearense voltou arrasado à padaria.
— Foi só uma pra tirar o nervoso — ele se justificou para Marina.
Ela se zangou, mas com pena. A balconista soube naquele dia que o amigo tinha perdido a esposa para um outro cara lá da terra dele; que não tinha mais para onde voltar e isto o impulsionou a tomar a dose de encorajamento. Conseguiu se controlar ao ponto de não continuar bebendo por causa de Marina; não queria decepcioná-la, mas agora tinha dado tudo errado.
— A gente arruma outra chance — falou a moça, sorrindo.
Agora, ali, olhava para o homem estranho.
— Vou perguntar pra ele, o que acha?
— Sei não — respondeu-lhe Marina. — Ele não parece querer ser incomodado.
Neste tempo, o homem se virou para o balcão, como se pressentisse que era o assunto das outras duas pessoas do recinto. Foi só impressão, ele queria mesmo era pedir outra garrafa.
— Aqui — a atendente o serviu profissionalmente.
O sujeito a pegou pelo braço, chorando, pedindo ajuda. Ezequiel se aproximou para defender a amiga, mas não precisou, pois o rapaz percebeu que tinha exagerado e conscientemente afastou sua mão.
— O que aconteceu, homem? — Ezequiel perguntou.
— Eu vou contar…
Os três se sentaram à mesa. Sérgio — era esse o nome — começou a falar.
Disse que era separado da mãe do seu filho, morava em uma cidade distante dali e que viajava para casa naquela manhã. Acompanhava-o seu filho, de nome Carlos, que passaria o final de semana com ele.
Semana passada não tinha conseguido ir à cidade de Carlinhos, pois o dinheiro não foi suficiente para pedágio e combustível, sendo que o menino ficou esperando, o que o fez se sentir culpado a semana toda. Eles se falaram por telefone em algumas oportunidades e combinaram que o final de semana seria incrível.
Ainda estava escuro quando Sérgio acordou para buscar seu filho. Viajou ansioso até a casa da ex-mulher. Sete horas e alguns minutos ele estava batendo no portão de grades dela e sendo recepcionado pelo menino e seu sorriso. Tomaram café em uma padaria ali do bairro, parecida com aquela em que Marina trabalhava. Barriga cheia, pé na areia!
No meio do caminho, o pneu estourou. O carro capotou. O menino estava sem cinto. Foi arremessado pela janela e caiu no asfalto.
— Foi horrível… muito sangue, pedaços que eu nem reconhecia. O corpo todo retorcido… — Sérgio desabou em choro.
Um silêncio constrangedor e tenso invadiu toda a padaria. Uma buzinada de um carrinho de sorvete pareceu o som mais alto do mundo. Sérgio passou a manga esgarçada da blusa sobre o rosto e terminou:
— Então aquela visão me deixou apavorado. Saí correndo, Fugi! Agora estou aqui…
Neste momento, Sara entrou imponente pela porta retangular do estabelecimento. Óculos escuros nos olhos, o cabelo alisado, bem escovado, brilhante. Trajava um vestido elegante, amarelo; sandálias nos pés e uma bolsa de couro pendendo do ombro pálido. Assim que identificou sua funcionária, mais o cliente assíduo sentados perto de um terceiro, fechou a cara. Não disse nada, no entanto. Entrou, passou pelo balcão, sumiu pelos fundos da padaria.
— Fica aqui com o Ezequiel — Marina falou para Sérgio —, vou falar com a Dona Sara e ela vai te ajudar.
Assim que Marina fechou a porta atrás de si e ganhou as dependências do cômodo em que se assava os pães, deu de cara com os olhos amarelos da patroa. Ela prendia o cabelo em um rabo de cavalo quando disse:
— Ele já pagou?
— O quê? — a jovem não entendeu imediatamente o que Sara queria saber.
Depois refletiu e enquanto sua intenção de pedir ajuda ia se esvaindo respondeu:
— Ainda não, mas…
— Ele não vai pagar, Mari.
— Como é?
— Ele é louco, menina!
Marina franziu o cenho, absorvendo o impacto daquelas palavras. Abriu a porta, ansiosa. Mirou os olhos verdes para a mesa em que, há pouco, ouvira a história mais triste e verossímil da sua vida. Vazia…
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