Essa coisa
2ª parte do núcleo “Quem é ela” de Superpoderosa
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Nove horas da manhã o celular de Meire Teixeira, a delegada titular do 1° distrito de Santa Paz, toca. É cedo, ela teve uma noite terrível.
— Alô — tenta não falar como alguém que acaba de acordar.
— Temos um problema aqui na delegacia, Dra. Meire. Uma advogada exige falar com a senhora.
— Tá — Meire se levanta — Eu já vou.
Advogados, sempre eles. Acham-se mais gostosos do que os outros, pensa Meire enquanto banha-se. Costuma chegar à delegacia onze horas, tudo está tranquilo ultimamente.
Sua família reside na capital e ela por conta da nomeação veio à Santa Paz. Formara-se em Direito há dois anos, é jovem, não tem intenção de se casar.
Quando estaciona o seu carro de luxo atrás do prédio antigo do 1º Distrito Policial, faz o sinal da cruz. É costume de família, antes de iniciar o trabalho pedir proteção.
Cumprimenta os policias que encontra pelo caminho até sua sala. Fita a porta e lembra-se da última vez que estivera ali; da super-heroína encostada no batente. Era loucura, admitia. Mercúria era o nome da garota peculiar, sério isso? Meire balança a cabeça como se o gesto físico pudesse afastar os pensamentos. Senta-se e então a porta se abre:
— Doutora Meire?
— Bom dia. Ia pedir para chamá-la, mas a senhora se antecipou.
— Sou a Doutora Valéria, prazer — a bonita senhora estende a mão cheia de pulseiras e anéis — Vim falar pessoalmente com a senhora sobre quem vem estampando as primeiras páginas dos nossos jornais.
— O que tem?
Valéria veste-se com blazer cinza e os cabelos dourados bem penteados descem-lhe pelos ombros. Olhos castanhos contornados por maquiagem analisam a delegada. Diz:
— Preciso saber quem é. Sei que a doutora tem uma “relação” com essa coisa.
— Não tenho nada a ver com essa coisa — Meire gesticula negativamente — Mas só por curiosidade, posso saber o motivo?
— Danos ao patrimônio de meus clientes — a advogada joga um volume de processo na mesa da delegada — Dilapidação do patrimônio de vários donos de lojas e bancos — ela acrescenta exemplares do Jornal Cidade.
— Doutora, ela prendeu bandidos, salvou vidas — esclarece Meire.
— Esta coisa precisa assumir os prejuízos causados aos donos de lojas que invade. Veja este orçamento — Valéria abre o processo — Vidraças, balcões, paredes, tudo danificado.
— Não sei quem é ela, lamento — Meire puxa o maço de cigarros.
— O repórter Marcelo Siqueira me informou que a doutora tem “amizade” com seja lá que tipo de coisa estamos lidando aqui.
— Marcelo é um mentiroso!
Valéria se levanta:
— Por enquanto, essa anomalia só causou danos patrimoniais…
— Acha que ela vai matar pessoas? Por favor, doutora.
Valéria responde com indagação:
— Se a senhora pudesse fazer algo extraordinário, o que a impediria de oprimir as pessoas?
Meire silencia, não tinha pensado nisso. Valéria finaliza:
— Estou com vários processos contra a coisa, mas todos estão parados. A Justiça não tem como julgar um ser que não tem características humanas e nem mesmo uma identidade.
— Se eu soubesse de alguma coisa diria, Doutora Valéria.
— Está bem — a elegante advogada se vira.
Meire observa ela sair, ela é bonita.
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